Cultura & Sociedade

Tchiloli de São Tomé e Príncipe oficialmente reconhecido como Património Cultural Imaterial Mundial pela UNESCO

O Tchiloli, manifestação singular de teatro, música e dança de São Tomé e Príncipe, foi esta terça feira distinguido pela UNESCO como Património Cultural e Imaterial Mundial, confirmou o director geral da Cultura, Emir Boa Morte. A confirmação foi feita pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura durante a 20.ª sessão do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, a decorrer em Nova Deli, na Índia. Este reconhecimento representa o culminar de um processo iniciado em 2015 e marca a primeira inscrição de São Tomé e Príncipe na lista representativa da UNESCO.

RL
Redação Leve Leve
📅 01 de Abril de 2026 ⏱ 4 min de leitura

A decisão representa o culminar de um processo iniciado em 2015, marcado por vários desafios e etapas técnicas. Após a perda de parte da documentação inicial, novos estudos foram lançados em 2023 para sustentar o dossiê, trabalho que levou, em 2024, à inclusão do Tchiloli no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. O Tchiloli, uma das expressões culturais mais emblemáticas de São Tomé e Príncipe, pode em breve ser reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. O reconhecimento internacional trará visibilidade não apenas à peça, mas também à riqueza simbólica e histórica de São Tomé e Príncipe. O título será um reconhecimento da resistência cultural e da criatividade de um povo que soube transformar uma herança colonial em expressão de identidade, memória e orgulho nacional. A manifestação cultural inspira se em seis romances castelhanos derivados do ciclo carolíngio do século XI e conta a história de Dom Carloto, filho e herdeiro do imperador Carlos Magno, que assassina o seu melhor amigo, Valdevinos, sobrinho do marquês de Mântua, durante uma caçada por se apaixonar por Sibila.

O Ministério da Cultura santomense, através da Direcção Geral da Cultura, tem coordenado os esforços para a preservação e promoção desta tradição secular. Emir Boa Morte sublinhou que “fizemos candidatura, foi aprovada, passamos por todas as fases e agora vamos ser galardoados”, acrescentando que “esta semana, creio que esta quinta feira, a ministra receberá o galardão de Tchiloli enquanto património cultural imaterial da humanidade”. Trata se de um reconhecimento internacional desta manifestação cultural única são tomense, de teatro popular, música e dança. A UNESCO felicitou o Estado são tomense pela sua primeira inscrição na lista representativa, sublinhando a “perseverança e o empenho” demonstrados ao longo da candidatura. As autoridades governamentais destacaram que este reconhecimento consolida São Tomé e Príncipe no panorama cultural internacional e reforça a importância de preservar as tradições nacionais para as gerações futuras.

A comunidade cultural nacional e os grupos de Tchiloli receberam a notícia com grande entusiasmo e orgulho. O Tchiloli, sinónimo da palavra teatro, é a manifestação cultural mais conhecida e documentada do país. Os grupos de Tchiloli, denominados de tragédias, estão espalhados por diversas localidades de São Tomé, representando versões próprias daquela peça. O espectáculo tem a duração de 5 a 6 horas, com grande participação do público. Um dos grupos de Tchiloli mais conhecidos é o Formiguinha de Boa Morte, que tem mantido a sua actividade ao longo de décadas e já representou o país em vários eventos internacionais. É um dos 4 ou 5 grupos que continuam no activo a prolongar a tradição, como o Florentina do Caixão Grande, o Santo António Madre de Deus e os Africanos de Cova Barro. Os praticantes consideram este reconhecimento como uma validação do trabalho de preservação cultural desenvolvido ao longo de gerações.

O reconhecimento pela UNESCO abre novas perspectivas para o desenvolvimento cultural e turístico de São Tomé e Príncipe. Entre as iniciativas previstas constam a criação de centros de recursos, um museu vivo dedicado ao Tchiloli e a realização de simpósios científicos que promovam o estudo, a documentação e a reflexão académica sobre esta expressão cultural. A UNESCO propõe medidas de salvaguarda, a serem implementadas pela Rede Tchiloli com apoio técnico, financeiro e logístico do Governo são tomense, incluindo a organização de concursos e eventos, a divulgação de materiais sobre o teatro, a transmissão de conhecimentos com foco na formação de jovens, e a expansão da Rede Tchiloli. Este título promete impulsionar o turismo cultural no arquipélago, atraindo visitantes interessados em experiências culturais autênticas e contribuindo para o desenvolvimento económico local através da valorização do património imaterial nacional.

Artigos Relacionados